sábado, 4 de julho de 2009

Argumentação Ingênua

Blog Rafinha Bastos:

"Sarney é uma figura que personifica muito bem o triste momento que vive o Poder Legislativo brasileiro. É o político que se mantém a mais tempo no poder da história do Brasil (54 anos). Teve infinitas chances de fazer algo, mas infelizmente decidiu APOIAR os mais diversos absurdos com um único intuito: Manter cheia a sua tetinha no poder público.#forasarney... já!"

Também tenho minhas questões a esse respeito. E não, não considero a argumentação do "Fora Sarney" despropositada, ou ingênua. Acredito que a minha sim seja ingênua e quase 'ptista', mesmo que não seja o caso. Segue minha leitura do caso abaixo:

Passei pelo menos um ano de minha vida ouvindo nas aulas de política da Faculdade duas coisas: "Nossas instituições, sistema eleitoral, e divisão de poderes fazem com que nosso presidente seja refém do legislativo e impeçam e tudo o mais que se refere a democracia de funcionar" versus "Nossas instituições não estão falidas, pelo contrário, elas permitem a governabilidade, através de medidas provisórias e da centralização do poder"

Pois muito que bem, nesse meio tempo surge mensalão, probabilidades misticas (todos nossos deputados usaram de maneira cravada os 90 mil reais previstos por lei como subsídio para suas ações (como viagens, por exemplo) ligadas ao cargo no legislativo), e atos secretos no congresso.

À primeira vista, tudo isso parece indicar para a primeira fórmula, correto? De que realmente não temos governabilidade e mais, que no Brasil tudo é feito por corrupção e próprio interesse. Pois muito que bem, a minha questão é, fora o mensalão, como raios ficamos sabendo de todo esso? Ora com uma coisa chamada "transparência pública". Ora, parece-me que estamos em uma situação bastante delicada - pela primeira vez, mesmo que de maneira por vezes insatisfatória, consigo enxergar realmente os insultos feitos em relação a democracia de meu país e, de maneira absurda, devo louvar aos céus porque isso está acontecendo.

Me pergunto realmente se nossas instituições democráticas estão "falidas". Será que essa não é a oportunidade não é exatamente o contrário? Não trata de, agora, caso essas instituições realmente estejam em crise, traze-las à tona? Não se trata de, junto ao esforço da transparência pública, nos comprometermos em participar, deixar de lado o caratér blasé de nossa sociedade civil??

Para mim não parece ser um problema de instituição, mas sim das pessoas a integrar o poder e o como ele vem sendo manejado. Me emputeço há muito com o que acontece do lado de lá da força, com o que tem sido feito com meu dinheiro, e com o como as coisas deixam de funcionar. Concordo com "Rafinha Bastos" que o que estamos presenciando é um exemplo do como tem funcionado o Legislativo e que Sarney funciona sim como um símbolo disso tudo. Porque então não apoio o #forasarney?

Porque meu problema não é com Sarney, mas com a falta de mudanças por episódio. Creio que temos sim governabilidade, mesmo que a tranco e barrancos, com deputados, senadores, e membros do executivo muito mais interessados no salário de seus ascensoristas (12 mil reais gente, eu tb quero ser ascensorista quando crescer), em gastar até o último centavo o dinheiro separado a esses como subsídio à sua ação política para interesse próprio, do que com a representividade e com a razão de sua eleição.

Creio ainda mais que símbolos no Brasil servem muito mais para fazer esquecer do que lembrar. Creio, como Abramo, que um Fica Sarney é mais frutífero. A saída de Sarney faria dele sim Símbolo disso tudo, mas quem me garante que não ficará por isso mesmo. Atingida uma conquista, todo o processo sobre os atos secretos do congresso e os absurdos que temos lido no jornal ficam parado, e o que podia ser grande fique por isso mesmo. O Sarney é uma pedra no sapato perto de todo o arrombo que essa história está trazendo. Devemos pedir pela ação do MPF, por respostas a tudo o que estamos presenciando, por Accountability efetiva, ou seja, por saber o que está acontecendo e, tendo algum tipo de sanção a esses infelizes que quebram as regras e sujam nossa democracia. Vale sim nosso não-voto para eles. Vale. Mas é preciso mais, é preciso pressão para que o MPF faça seu trabalho e busque estirpar a todos os vírus existentes em nosso legislativo, não só um que, mesmo merecendo, em nada mudará o status quo.

E que mais um um episódio Roberto Jefferson não se repita nesse país...

Um comentário:

Leonardo Barone disse...

Esse post é um comentário que escrevi no blog de minha amiga Monise, socióloga e blogueira reanimada, cujo link (Blog: "Nada Mais") se encontra ao lado.
É um problema sério de como entendemos a política. O que faliu? As instituições? As pessoas que as ocupam? Há como mudar pessoas sem mudar as intituições? A mudança das instituições muda as pessoas que lá estão? Eu não sei responder. Acho, ainda assim, e parece que concordando com você, que temos que manter as instituições e mudar as pessoas, as práticas, produzir transparência e controle por parte da sociedade.
Quanto ao Sarney, lembremos dos casos anteriores. Um ou dois foram punidos e o assunto morreu. Talvez seja verdade que tirar apenas o Sarney faça com que o caso seja encerrado. Que um "fica Sarney" talvez seja mais frutífero.
Mas há dois aspectos muito importantes. O primeiro, é que o Sarney é um jogador pesado demais. Se alguém com tamanho cacife pode ser derrubado, os demais atores poderão ter menos incentivo à corrupção e abuso da condição de parlamentar. Punir o Sarney de verdade (se for possível) pode ser um fator de moralização para a política brasileira.
O segundo aspecto, é que, enquanto tiver poder e for um ator relevante, o Sarney é capaz de buscar soluções pactuadas menos danosas para todos os envolvidos. Em especial enquanto ele conseguir chantagear o governo. Seja quem for o governo.